quarta-feira, abril 15, 2026

| Bussaco

Quando me propôs o fim de semana não sei porque aceitei. As coisas entre nós estavam já resolvidas e aquilo tinha tudo para ser daquelas decisões de que nos arrependemos mais tarde. Claro que ainda havia alguma coisa, há sempre, já não amor, algo, um resto que ela achou suficiente.

Alugámos um carro, saímos já tarde, a meio, por insólito que pareça começou a nevar, nunca tinha visto nevar assim na autoestrada, por isso achei divertido. Chegámos tarde, o hotel era um palácio, um palácio de verdade não uma figura de estilo. Corredores altos, escadas largas, tudo demasiado grande. O quarto ainda mais, tectos trabalhados, móveis antigos, uma cama que nos podíamos perder lá dentro. Achei divertido. Para dizer a verdade estava cansado deitei-me sem pensar muito. Adormeci quase de imediato. Acordei com música. Não sei quanto tempo passou. Havia velas acesas, várias, espalhadas pelo quarto. A banheira era enorme, eu nunca tinha visto uma banheira tão grande, estava cheia, havia pétalas e espuma, verdadeiro cliché de novela. Ela tinha uma lingerie que, se não estou em erro lhe tinha oferecido eu, mas não posso jurar. Disse-me que tinha ligado e pedido um quarto assim de propósito para fazer uma surpresa e eu achei divertido. Sempre gostei de surpresas. A água estava muito quente no início. Depois deixou de estar. Ficámos lá muito tempo, não sei quanto. A janela embaciada, o frio do lado de fora, a neve a cair devagar no jardim.

No dia seguinte estava tudo branco, os jardins, as árvores, os caminhos. Tirei fotografias sem parar como se fosse a primeira vez. Almoçámos na vila e depois subimos ao topo da serra. Pelo caminho paramos várias vezes para fotografar, a vista era incrível, de filme. Eu achei divertido. Depois lembro-me que desci as escadas devagar, deixei-a seguir na frente e então parei um pouco. Era um desperdício, o que eu queria mesmo era fazer tudo aquilo, mas contigo. A tarde continuou serena, jantámos na vila mas noutro restaurante. De volta ao quarto, velho e frio demais, a banheira que mais parecia um tanque, a cama desproporcional. A musica era a mesma e achei tudo muito menos divertido. Depois fiquei algum tempo acordado a olhar para o tecto. Era alto, antigo, não acabava. Pensei que devia estar satisfeito. Pensei que devia estar contigo. Acho que no fundo o que eu queria mesmo era fazer tudo aquilo, mas contigo.

Levantei-me para ir à janela. A neve já tinha começado a desaparecer.

Hoje perguntaste se quero ir ao Bussaco no próximo fim de semana. Que nunca foste, que com este frio talvez neve, que vai ser divertido. Não sei ainda o que responder. No fundo, tenho a certeza: Já não chega fazer tudo aquilo, mesmo contigo.

domingo, abril 12, 2026

| Desassossego

SOSSEGO lê-se na mão da mulher em pé. E o dedo indicador dança contra o metal do pilar central, em desafio da recomendação escrita. No braço espreita uma estrela e um desenho esconde-se e desaparece na manga do casaco.

Um comboio cheio é uma biblioteca de histórias.

Um homem luta entre o sono e o vídeo no telemóvel que cai repetidamente até que desiste, embalado pelo sol que atravessa a almofada de vidro improvisada.

O revisor valida bilhetes, desapaixonadamente, de verde em verde. A maquineta portátil rejeita em vermelho vivo vários dos bilhetes que a mulher sentada vai resgatando ao fundo da mala. As pessoas por perto olham, curiosas. Quantas tentativas serão precisas. Quantas são demasiadas?

— Eu… nunca tive ilusões. O homem fala com alguém longe, que não pode, nem quer, imaginar as histórias deste comboio, nem sequer as do homem que fala.

Alguém pede licença. As portas abrem na nova estação.

terça-feira, março 03, 2026

| Quando quiseres

Gostava que olhasses desse lado do quarto, desse lado da vida, que respondesses, com palavras, ao que te pergunto em silêncio há semanas.

Gostava de eliminar os rodeios, as respostas com pontos de interrogação. Uma resposta deve ter um ponto final a fechar de forma definitiva a ideia. Gostava que a coragem não fosse só uma palavra, que tivesses coragem para variar.

Conto em silêncio os dias, sei ao que vens, estou mais do que pronto.

Quando feitas as contas, cadernos fechados, despojos vendidos, quando sem remorsos nem saudade se der por concluída a operação a que te propuseste, últimas palavras em tom de despedida. Quando finalmente saíres, a casa em silêncio, molduras vazias, copo de vinho cheio, um livro qualquer, a televisão desligada, podes levar a televisão se não te causar transtorno.

Quando finalmente sentir que já não existes, posso começar a fingir não sentir a tua falta.

sexta-feira, fevereiro 27, 2026

| Imprevisto

Nada o fazia prever, disso recorda-se bem. Os detalhes são imprecisos, misturam-se com instantes, catalisadores insuspeitos da memória.

O trânsito infernal, a corrida apressada, ele nunca gostou de esperar. Ao certo foi em Abril. Um amigo de regresso. Entre a amena cavaqueira de café, olhares que se cruzam, tudo o que veio por acréscimo. As imagens disformes numa tentativa de não esquecer.

Bebe o copo de um trago, acende um cigarro. Não entende como é possível que se tenham insinuado tantos lapsos numa história simples e fácil de recordar. O pequeno-almoço intocado, não já no café, num quarto de hotel. O sol por entre as cortinas, a cama desfeita. A viagem a Ceuta, a casa alugada no regresso, como se todo o tempo fosse pouco, como se fosse um crime desperdiçar mais um dia.

Nada o fazia prever, disso recorda-se bem. A casa de repente vazia, como se até um pouco de tempo fosse demais, como se fosse um crime prolongar mais um dia. As palavras que magoam porque ficam. Vagueia pelo quarto, o silêncio, os objetos de que se vai livrando, as palavras que ardem.

Nada o fazia prever, disso recorda-se bem.

terça-feira, fevereiro 24, 2026

| História por Inventar

No princípio do mundo, os homens escutavam os deuses nas árvores da floresta. Num voo de gaivota sobre a praia acreditaram adivinhar o futuro. Num olhar inventaram o amor. Todas as distâncias e todos os invernos se encurtaram nesse dia.

Não sei dizer quando senti o mundo a mudar. Não foi um momento épico. A meio de uma conversa, o vento lá fora sincronizou as folhas das árvores e soube que as nossas palavras eram o que de mais importante existia no mundo. O tempo deixou de exigir perguntas com sentido e eu desejei que fosses história por inventar.

Do futuro só adivinho o distante, onde o que somos se transforma em nada e a memória de que existimos se anula. Não sei do amanhã nem do que traz o verão, não sei tanto quanto queria sobre quem és, mas sei que o inverno pode, talvez agora terminar.

terça-feira, fevereiro 03, 2026

| Velho de gabardine roxa

Esperei impaciente que o autocarro arrancasse de novo, estava com pressa. Como se não bastasse o trânsito habitual, justamente agora o autocarro à minha frente tinha decidido demorar uma eternidade a deixar passageiros. Quando finalmente sinalizou retomar o caminho, suspirei de alivio. O autocarro avançou e deixou visível na paragem à direita, um velho sorridente que vestia orgulhosamente uma gabardine roxa. Não era uma gabardine demasiado ostensiva mas era invulgar o suficiente para se fazer notar.

Pensei na história dele. Inventei a história dele. Como será quando eu for ele.

Segui a viagem mas não dei conta do caminho. Fiquei a observar um velho na paragem, com uma gabardine roxa, enquanto a tarde se arrumou em noite.

| Todos os dias

Estive há dias a pôr a conversa em dia com o Francisco. Quando me perguntou por ti, contei que não falávamos desde o ano passado mas que estava tudo bem. Ficou feliz, comentou que afinal não tinhas sido tão importante nem tão difícil de esquecer. Retorqui que estava bem mas que pensava em ti todos os dias. Fez-se silêncio, riu e mudou de assunto, não sei para que assunto, porque fiquei a pensar na frase que disse sem pensar.

Penso em ti todos os dias. Não todos os dias da mesma forma, mas todos os dias de alguma forma. Nunca com melancolia, nunca com tristeza, nunca com saudade. Penso em ti como as músicas que me ensinaste a ouvir, como regras que decidimos seguir, como silêncios escassos que ousámos quebrar.

Penso em ti todos os dias e ao pensar dei-me conta de que não presto atenção aos detalhes do presente mas podia viver facilmente nos detalhes de memórias tuas. São detalhes que se insinuam como a praia no inverno, ondas ao longe, eco que acalma a tarde. Aprendi a convocar memórias tuas, quando preciso delas, quando faz falta o silêncio, quando é preciso continuar.

Penso em ti todos os dias, porque pensar em ti me faz bem, de formas que sei dizer e de outras que não sei bem dizer, mas sei sentir.

Suponho que um dia vou passar todo o dia sem pensar em ti.

Hoje não foi ainda esse dia.