sexta-feira, setembro 12, 2025

| Improvável

- (Eu não acredito em deus) Mas o acaso que te criou estava muito inspirado no dia que o fez.

Não sei o que fazer com este texto. Será um diálogo imaginário ou um monólogo transcrito de pores do sol que nunca chegaram? Há frases soltas que se inventam entre passos a ritmo rápido na madrugada, enquanto a memória do teu sabor me assalta desprevenido.

(É voz corrente do povo da redondeza, quando deus fez a beleza foi em ti que ele pensou) - Cantava a música em plano de fundo enquanto no primeiro plano se discutiam teorias de felicidade.

A beleza de qualquer texto, até deste, é que uma vez escrito, enquanto existir, a memória existe.

- Daqui a, por exemplo, 50 anos vais lembrar os rascunhos de planos impossíveis?

- Impossíveis é um exagero.

- Improváveis então?

- Uma coisa de cada vez.

Uma coisa de cada vez é um bom plano, sólido, a roçar o infalível. Como uma decisão de que o que vier será melhor e todos os erros são desculpas de recomeço.

Saramago dizia que na vida cabem mais vidas do que as que somos capazes de viver e eu tendo a concordar. O que não diz é o risco de as querer viver todas e de todas as vidas que se eliminam a cada escolha.

Não sei o que fazer com este texto, mas no esboço ele era leve como um poema, como uma canção, como tu.

Será mesmo que tudo o que criamos é uma derivada de algo? Das músicas que ouvimos, os livros que lemos, as pessoas que amamos? E se assim for, serão os pensamentos que me invadem um produto das memórias fotográficas de noites inventadas? O que fica, a vida que fica, é real, tão real como saber que te escrevi antes de te imaginar existir.

- Como pode ser que não prestes e prestes tanto ao mesmo tempo?

- Como pode ser que palavras tão ao acaso cheguem tão longe em tão pouco?

Não sei o que fazer com este texto. Podia escrever durante horas.

(Tu sabes que podia escrever durante horas)

Mas as horas não simplificam o destino. Não sei o que fazer com este texto, mas principalmente não sei como o terminar.

Sei, a sugestão que darias. E sei que é bom terminar como tudo começa, por isso, porque não pode ser de outra forma

- Uma coisa de cada vez…