| Bussaco
Quando me propôs o fim de semana não sei porque aceitei. As coisas entre nós estavam já resolvidas e aquilo tinha tudo para ser daquelas decisões de que nos arrependemos mais tarde. Claro que ainda havia alguma coisa, há sempre, já não amor, algo, um resto que ela achou suficiente.
Alugámos um carro, saímos já tarde, a meio, por insólito que pareça começou a nevar, nunca tinha visto nevar assim na autoestrada, por isso achei divertido. Chegámos tarde, o hotel era um palácio, um palácio de verdade não uma figura de estilo. Corredores altos, escadas largas, tudo demasiado grande. O quarto ainda mais, tectos trabalhados, móveis antigos, uma cama que nos podíamos perder lá dentro. Achei divertido.
Para dizer a verdade estava cansado deitei-me sem pensar muito. Adormeci quase de imediato. Acordei com música. Não sei quanto tempo passou. Havia velas acesas, várias, espalhadas pelo quarto. A banheira era enorme, eu nunca tinha visto uma banheira tão grande, estava cheia, havia pétalas e espuma, verdadeiro cliché de novela. Ela tinha uma lingerie que, se não estou em erro lhe tinha oferecido eu, mas não posso jurar. Disse-me que tinha ligado e pedido um quarto assim de propósito para fazer uma surpresa e eu achei divertido. Sempre gostei de surpresas. A água estava muito quente no início. Depois deixou de estar. Ficámos lá muito tempo, não sei quanto. A janela embaciada, o frio do lado de fora, a neve a cair devagar no jardim.
No dia seguinte estava tudo branco, os jardins, as árvores, os caminhos. Tirei fotografias sem parar como se fosse a primeira vez. Almoçámos na vila e depois subimos ao topo da serra. Pelo caminho paramos várias vezes para fotografar, a vista era incrível, de filme. Eu achei divertido. Depois lembro-me que desci as escadas devagar, deixei-a seguir na frente e então parei um pouco. Era um desperdício, o que eu queria mesmo era fazer tudo aquilo, mas contigo. A tarde continuou serena, jantámos na vila mas noutro restaurante. De volta ao quarto, velho e frio demais, a banheira que mais parecia um tanque, a cama desproporcional. A musica era a mesma e achei tudo muito menos divertido. Depois fiquei algum tempo acordado a olhar para o tecto. Era alto, antigo, não acabava. Pensei que devia estar satisfeito. Pensei que devia estar contigo. Acho que no fundo o que eu queria mesmo era fazer tudo aquilo, mas contigo.
Levantei-me para ir à janela. A neve já tinha começado a desaparecer.
Hoje perguntaste se quero ir ao Bussaco no próximo fim de semana. Que nunca foste, que com este frio talvez neve, que vai ser divertido. Não sei ainda o que responder. No fundo, tenho a certeza: Já não chega fazer tudo aquilo, mesmo contigo.
quarta-feira, abril 15, 2026
domingo, abril 12, 2026
| Desassossego
SOSSEGO lê-se na mão da mulher em pé. E o dedo indicador dança contra o metal do pilar central, em desafio da recomendação escrita. No braço espreita uma estrela e um desenho esconde-se e desaparece na manga do casaco.
Um comboio cheio é uma biblioteca de histórias.
Um homem luta entre o sono e o vídeo no telemóvel que cai repetidamente até que desiste, embalado pelo sol que atravessa a almofada de vidro improvisada.
O revisor valida bilhetes, desapaixonadamente, de verde em verde. A maquineta portátil rejeita em vermelho vivo vários dos bilhetes que a mulher sentada vai resgatando ao fundo da mala. As pessoas por perto olham, curiosas. Quantas tentativas serão precisas. Quantas são demasiadas?
— Eu… nunca tive ilusões. O homem fala com alguém longe, que não pode, nem quer, imaginar as histórias deste comboio, nem sequer as do homem que fala.
Alguém pede licença. As portas abrem na nova estação.
SOSSEGO lê-se na mão da mulher em pé. E o dedo indicador dança contra o metal do pilar central, em desafio da recomendação escrita. No braço espreita uma estrela e um desenho esconde-se e desaparece na manga do casaco.
Um comboio cheio é uma biblioteca de histórias.
Um homem luta entre o sono e o vídeo no telemóvel que cai repetidamente até que desiste, embalado pelo sol que atravessa a almofada de vidro improvisada.
O revisor valida bilhetes, desapaixonadamente, de verde em verde. A maquineta portátil rejeita em vermelho vivo vários dos bilhetes que a mulher sentada vai resgatando ao fundo da mala. As pessoas por perto olham, curiosas. Quantas tentativas serão precisas. Quantas são demasiadas?
— Eu… nunca tive ilusões. O homem fala com alguém longe, que não pode, nem quer, imaginar as histórias deste comboio, nem sequer as do homem que fala.
Alguém pede licença. As portas abrem na nova estação.
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