sexta-feira, fevereiro 27, 2026

| Imprevisto

Nada o fazia prever, disso recorda-se bem. Os detalhes são imprecisos, misturam-se com instantes, catalisadores insuspeitos da memória.

O trânsito infernal, a corrida apressada, ele nunca gostou de esperar. Ao certo foi em Abril. Um amigo de regresso. Entre a amena cavaqueira de café, olhares que se cruzam, tudo o que veio por acréscimo. As imagens disformes numa tentativa de não esquecer.

Bebe o copo de um trago, acende um cigarro. Não entende como é possível que se tenham insinuado tantos lapsos numa história simples e fácil de recordar. O pequeno-almoço intocado, não já no café, num quarto de hotel. O sol por entre as cortinas, a cama desfeita. A viagem a Ceuta, a casa alugada no regresso, como se todo o tempo fosse pouco, como se fosse um crime desperdiçar mais um dia.

Nada o fazia prever, disso recorda-se bem. A casa de repente vazia, como se até um pouco de tempo fosse demais, como se fosse um crime prolongar mais um dia. As palavras que magoam porque ficam. Vagueia pelo quarto, o silêncio, os objetos de que se vai livrando, as palavras que ardem.

Nada o fazia prever, disso recorda-se bem.

terça-feira, fevereiro 24, 2026

| História por Inventar

No princípio do mundo, os homens escutavam os deuses nas árvores da floresta. Num voo de gaivota sobre a praia acreditaram adivinhar o futuro. Num olhar inventaram o amor. Todas as distâncias e todos os invernos se encurtaram nesse dia.

Não sei dizer quando senti o mundo a mudar. Não foi um momento épico. A meio de uma conversa, o vento lá fora sincronizou as folhas das árvores e soube que as nossas palavras eram o que de mais importante existia no mundo. O tempo deixou de exigir perguntas com sentido e eu desejei que fosses história por inventar.

Do futuro só adivinho o distante, onde o que somos se transforma em nada e a memória de que existimos se anula. Não sei do amanhã nem do que traz o verão, não sei tanto quanto queria sobre quem és, mas sei que o inverno pode, talvez agora terminar.

terça-feira, fevereiro 03, 2026

| Velho de gabardine roxa

Esperei impaciente que o autocarro arrancasse de novo, estava com pressa. Como se não bastasse o trânsito habitual, justamente agora o autocarro à minha frente tinha decidido demorar uma eternidade a deixar passageiros. Quando finalmente sinalizou retomar o caminho, suspirei de alivio. O autocarro avançou e deixou visível na paragem à direita, um velho sorridente que vestia orgulhosamente uma gabardine roxa. Não era uma gabardine demasiado ostensiva mas era invulgar o suficiente para se fazer notar.

Pensei na história dele. Inventei a história dele. Como será quando eu for ele.

Segui a viagem mas não dei conta do caminho. Fiquei a observar um velho na paragem, com uma gabardine roxa, enquanto a tarde se arrumou em noite.

| Todos os dias

Estive há dias a pôr a conversa em dia com o Francisco. Quando me perguntou por ti, contei que não falávamos desde o ano passado mas que estava tudo bem. Ficou feliz, comentou que afinal não tinhas sido tão importante nem tão difícil de esquecer. Retorqui que estava bem mas que pensava em ti todos os dias. Fez-se silêncio, riu e mudou de assunto, não sei para que assunto, porque fiquei a pensar na frase que disse sem pensar.

Penso em ti todos os dias. Não todos os dias da mesma forma, mas todos os dias de alguma forma. Nunca com melancolia, nunca com tristeza, nunca com saudade. Penso em ti como as músicas que me ensinaste a ouvir, como regras que decidimos seguir, como silêncios escassos que ousámos quebrar.

Penso em ti todos os dias e ao pensar dei-me conta de que não presto atenção aos detalhes do presente mas podia viver facilmente nos detalhes de memórias tuas. São detalhes que se insinuam como a praia no inverno, ondas ao longe, eco que acalma a tarde. Aprendi a convocar memórias tuas, quando preciso delas, quando faz falta o silêncio, quando é preciso continuar.

Penso em ti todos os dias, porque pensar em ti me faz bem, de formas que sei dizer e de outras que não sei bem dizer, mas sei sentir.

Suponho que um dia vou passar todo o dia sem pensar em ti.

Hoje não foi ainda esse dia.