| Quando o meu pai morreu
Quando o meu pai morreu, morreu também em mim a ilusão de imortalidade. Até aquele momento a verdade da morte diluía-se no dia a dia, sem condicionar qualquer visão do meu mundo. Era uma ilusão saborosa, como quem procrastina algo que não é real enquanto não chega.
Quando o meu pai morreu, não me magoou nenhuma memória triste, nenhum desencontro ou opinião divergente, nenhum arrependimento. O que me magoou foram as memórias boas, a retrospectiva dos momentos banais em que fomos felizes sem saber. Entendi que tendemos sempre a sentir-nos eternos, a diluir os dias na certeza de tantos outros que estão por vir. A saber quem amamos como garantido. Gostava de ter entendido os momentos especiais que vivemos, como tal. De os ter reconhecido como memórias futuras em lugar de cotidiano. É certo que uma criança excitada por conseguir pedalar sozinha, ganhar pela primeira vez um jogo de damas ou conduzir um carro velho numa estrada de terra batida não poderia ler na altura outro significado. A retrospectiva, no entanto, permitiu entender o que esses momentos significaram, todos eles, das grandes conquistas às triviais conversas de fim de tarde na praia. Todos fazem parte de uma história breve e terminada.
Quando o meu pai morreu, pensei na meia vida que passou, e nos anos que viverei sem ele. Pensei que gostava de ver mais que meia vida dos meus filhos, mas que inevitavelmente, haverá anos da vida de quem amamos aos quais não vamos assistir.
Quando o meu pai morreu, nasceu em mim uma certeza. Sinto que conhecendo o nosso início e fim o que realmente importa é o resto. É garantir que nenhum momento passa por nós em vão. Que não diluímos nada na ilusão de um amanhã igual.
quinta-feira, setembro 08, 2022
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