| O sofá no canto do quarto
É verdade o que dizem de mim aqui por casa. Às vezes sinto-me perdida. A memória prega partidas, esqueço ao que ia, esqueço de onde vinha. Olho as nossas fotografias espalhadas pelos móveis e não reconheço a mulher com rugas ao teu lado.
Não sei porque demoras a voltar, também não sei precisar há quanto tempo foste. Se estás há meses nos Açores ou se saíste esta manhã para caçar no Alentejo, tudo se mistura. Devia assustar-me esta visão turva do tempo, sinto que sim. No entanto, os dias seguem simples e saborosos. As visitas que por aqui passam: abraços, sorrisos, rostos: Tudo desliza por mim sem ficar. As pessoas desta casa ocupam-se do resto.
Há dias ouvi contar algo que me soou familiar, sobre como, de um dia para o outro, enlouqueceste e eu me recusei a cuidar de ti. Sobre como em tão pouco tempo desapareceste e eu nem me despedi. Não devo ter entendido bem, sabes como confundo as coisas tantas vezes. Nesse dia fiz o que sempre faço: esperei que o ruído passasse, esperei pelo momento de voltar a este canto do quarto, sem pressa.
Às vezes penso que este sofá é o último lugar onde existo. Como se, ao sentar-me aqui, o mundo ficasse mais quieto e as palavras deixassem de fugir. Mesmo sem saber se hoje é hoje, se já foi ontem, ou se ainda falta muito para amanhã. De vez em quando as coisas banais fazem sentido, há pouco, por exemplo, disseram-me que ia chover. Fiquei contente. A chuva sempre me deu paz. Gosto de ver as gotas a descer, como se o mundo se arrumasse. Acredito que, mesmo que a minha cabeça se desarrume, tu vais saber encontrar-me no meio do silêncio.
O silêncio eu entendo. De alguma forma ele dissolve o tempo em memórias e leva-me para longe, sempre para os mesmos lugares. Sempre para ti.
quarta-feira, novembro 26, 2025
quarta-feira, novembro 12, 2025
| Segunda-Feira
Segunda-feira não é dia para aventuras nem tropelias.
É dia de entrar no elevador sem pressa, apesar da hora tardia.
Abrir a porta que ficou no trinco, sorrir, porque me esperas.
Cabelo despenteado, camisola larga de dormir, sem mais nada.
No peito, planetas desenhados; no olhar, o universo.
O teu beijo é o paradoxo habitual, entre o conforto e o arrepio.
O resto do risoto de domingo, o resto da conversa do dia
O resto de um abraço na cama, um adormecer igual.
Uma segunda-feira banal que podia ser o resto, de uma vida.
Segunda-feira não é dia para aventuras nem tropelias.
É dia de entrar no elevador sem pressa, apesar da hora tardia.
Abrir a porta que ficou no trinco, sorrir, porque me esperas.
Cabelo despenteado, camisola larga de dormir, sem mais nada.
No peito, planetas desenhados; no olhar, o universo.
O teu beijo é o paradoxo habitual, entre o conforto e o arrepio.
O resto do risoto de domingo, o resto da conversa do dia
O resto de um abraço na cama, um adormecer igual.
Uma segunda-feira banal que podia ser o resto, de uma vida.
terça-feira, novembro 11, 2025
| Multiverso
Estou a habituar-me à ideia de deixares de fazer parte do meu dia, mas confesso que é uma ideia de merda.
Ontem li que em 1957, um físico americano propôs uma tese sobre universos paralelos. Achei auspicioso que, algures, duas versões nossas tenham encontrado maneira de continuar na vida um do outro. Que passem ainda horas em debates abstratos, com a leveza com que listam banalidades, na esperança adolescente que um detalhe os coloque em desacordo.
O que não parece justo, é a versão do universo que me calhou: Em que tudo o que tenho são memórias que deixaste em mim.
Sabes, nunca fui altruísta. Não me consola saber de mecânicas quânticas que originam sorte alheia. O que queria era sentir a tua pele mais uma vez. Juro que era só mais uma vez.
E talvez, no processo de bifurcação de universos, eu tivesse sorte. Talvez, desta vez, fôssemos nós a cópia boa.
Estou a habituar-me à ideia de deixares de fazer parte do meu dia, enquanto penso que em todas as versões, haverá sempre um fim.
Talvez, a nossa versão seja a boa afinal. Fomos, por um momento, tudo.
Talvez isso seja suficiente…
Estou a habituar-me à ideia de deixares de fazer parte do meu dia, mas confesso que é uma ideia de merda.
Ontem li que em 1957, um físico americano propôs uma tese sobre universos paralelos. Achei auspicioso que, algures, duas versões nossas tenham encontrado maneira de continuar na vida um do outro. Que passem ainda horas em debates abstratos, com a leveza com que listam banalidades, na esperança adolescente que um detalhe os coloque em desacordo.
O que não parece justo, é a versão do universo que me calhou: Em que tudo o que tenho são memórias que deixaste em mim.
Sabes, nunca fui altruísta. Não me consola saber de mecânicas quânticas que originam sorte alheia. O que queria era sentir a tua pele mais uma vez. Juro que era só mais uma vez.
E talvez, no processo de bifurcação de universos, eu tivesse sorte. Talvez, desta vez, fôssemos nós a cópia boa.
Estou a habituar-me à ideia de deixares de fazer parte do meu dia, enquanto penso que em todas as versões, haverá sempre um fim.
Talvez, a nossa versão seja a boa afinal. Fomos, por um momento, tudo.
Talvez isso seja suficiente…
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