quarta-feira, novembro 26, 2025

| O sofá no canto do quarto

É verdade o que dizem de mim aqui por casa. Às vezes sinto-me perdida. A memória prega partidas, esqueço ao que ia, esqueço de onde vinha. Olho as nossas fotografias espalhadas pelos móveis e não reconheço a mulher com rugas ao teu lado.

Não sei porque demoras a voltar, também não sei precisar há quanto tempo foste. Se estás há meses nos Açores ou se saíste esta manhã para caçar no Alentejo, tudo se mistura. Devia assustar-me esta visão turva do tempo, sinto que sim. No entanto, os dias seguem simples e saborosos. As visitas que por aqui passam: abraços, sorrisos, rostos: Tudo desliza por mim sem ficar. As pessoas desta casa ocupam-se do resto.

Há dias ouvi contar algo que me soou familiar, sobre como, de um dia para o outro, enlouqueceste e eu me recusei a cuidar de ti. Sobre como em tão pouco tempo desapareceste e eu nem me despedi. Não devo ter entendido bem, sabes como confundo as coisas tantas vezes. Nesse dia fiz o que sempre faço: esperei que o ruído passasse, esperei pelo momento de voltar a este canto do quarto, sem pressa.

Às vezes penso que este sofá é o último lugar onde existo. Como se, ao sentar-me aqui, o mundo ficasse mais quieto e as palavras deixassem de fugir. Mesmo sem saber se hoje é hoje, se já foi ontem, ou se ainda falta muito para amanhã. De vez em quando as coisas banais fazem sentido, há pouco, por exemplo, disseram-me que ia chover. Fiquei contente. A chuva sempre me deu paz. Gosto de ver as gotas a descer, como se o mundo se arrumasse. Acredito que, mesmo que a minha cabeça se desarrume, tu vais saber encontrar-me no meio do silêncio.

O silêncio eu entendo. De alguma forma ele dissolve o tempo em memórias e leva-me para longe, sempre para os mesmos lugares. Sempre para ti.

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