terça-feira, fevereiro 27, 2007

| Um dia igual

Quando ela chegava sem avisar, tarde, quase sempre, a chave dava duas voltas na fechadura. Entrava devagar e fechava com cuidado a porta, despia o casaco, que deixava no espaço vazio do cabide. O gato era preto, vinha sempre ver quem era, olhos a brilhar, miava de mansinho e passava-lhe por entre as pernas antes de saltar para o sofá. Abria a porta do quarto, descalçava os sapatos, despia a roupa, deitava-se no espaço vazio da cama. Ele acordava nesse exacto momento, sorria. Por entre beijos apressados, faziam amor, como estranhos que se conhecem demais, em silêncio. Ela sussurrava ao ouvido um amo-te envergonhado, sorria, adormeciam abraçados.

Ela acordava, cedo, quase sempre, levantava-se com cuidado. Ele acordava nesse exacto momento, fingia que dormia. Ela vestia a roupa, calçava-se, fechava a porta do quarto, vestia o casaco, a chave dava duas voltas na fechadura, tudo fazia prever mais um dia igual.

** Por fazer

Folhas espalhadas, textos por terminar, ideias dispersas, saber quem sou e o que quero não controla a necessidade constante de desistir, erro meu, pecado meu, adia-se a vontade, hoje e amanha e depois, até que a vontade se confunde com a rotina e a rotina já não doí. o desejo, a decisão, pedaços incertos do que fica, mais uma vez, mas só desta vez, por fazer.

domingo, fevereiro 25, 2007

** Um poema e duas cartas

Um poema e duas cartas, e linhas apressadas na contracapa de um livro.

A manhã em que fiquei na areia enquanto chamavas, a praia quase deserta, o teu sorriso feliz. De longe pensei que queria ter coragem para te deixar, que não te amava como devia, imaginei o que seria de nós, o que seria de ti, e como todas as vezes, por mais que tentasse acabava por querer ficar.

Tenho a certeza que o amor é mais ou menos isto e tudo na vida é um intervalo, um acto adiado, um livro meio escrito.

Os textos que não leste, as ideias por partilhar, todo um mundo que era só meu e que não conheceste. Os silêncios que não conseguias nem devias perdoar.

Um poema e duas cartas, e linhas apressadas na contracapa de um livro, e todos os silêncios, e este texto.

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

** Entrelinhas

Há qualquer coisa de errado,

- Outra vez?

(E tantas outras vezes)

Há qualquer coisa de errado na vida que escolhemos quase sem querer.

- Escolhemos, somos o que queremos ser.

(O que conseguimos, pelo menos)

Há tanta coisa por dizer, não sei onde começar.

- De hoje para trás, ou de hoje para amanha, conta o que vier, e o passado já lá vai.

(Simples demais, nada é simples demais)

Ao certo sabemos o que não queremos

- Há quem nem isso.

(Há quem nem isso)

Fica portanto a singela satisfação de sabermos existir pior e de termos um pouco melhor, de tudo o resto ser desnecessário para o caso em questão, e isso basta por hoje.

- É um principio.

(É quase um fim.)

(Muito mais do que devia, muito menos do que queria)

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

** Nunca

Nunca deixei de acreditar nas tuas guerras, nos teus desmedidos impulsos de liberdade. Nunca procurei mais do que o que tinhas para dar, neste ou em qualquer outro sinal de incerteza. O presente desenha-se em contornos coloridos, e nunca deixei de esperar os teus regressos. Em todas as despedidas guardas religiosamente o que resta, e sabes que o que fica é a parte mais importante de qualquer pecado por confessar. Nunca deixei de saber em ti o caminho para as palavras que não falo, para os silêncios que amo com rasgos de paixão infantil, para todos os medos, todos os defeitos. E afinal não importa que esqueças, não importa que me esqueças. Nunca deixei de acreditar que tudo se vai resolver, sem esforço, amanhã.

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

** Códigos

Em tantas verdades, e meias verdades, e mentiras piedosas, e mentiras, e mentiras descaradas, e intenções pressentidas mas não anunciadas. Em tantas histórias, em tantos silêncios, em tantas tentativas de não tentar, em tantos dias banais, resta a espera inquieta do teu grito.

** Coisas simples

Como se não fosse coisa estranha, em três ou quatro linhas de simples alegria, dois dedos de conversa e meia duzia de olhares cruzados, esperas por teus costumes retorcidos que nada se escape ou desvie do plano, e eu digo de repente como quem repete palavras gastas, e tu esqueces o que escreves, a caneta no chão de mosaico frio, o papel espalhado e manchado de azul, e eu digo de repente como quem repete palavras gastas. - Não sei quem és, não te quero conhecer.

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

** Perguntas

Ao certo não sei como aconteceu.

- Não sabes?

Sei, mas prefiro imaginar que foi de surpresa, que de forma inesperada te esqueci.

- Esqueceste?

Não, mas prefiro imaginar o que recordo como insignificante de mais para se notar.

- Não se nota?

Talvez.

- Talvez?

Não preciso responder as tuas perguntas,

- Não precisas ou não queres?

Precisava de não querer.