| Um dia igual
Quando ela chegava sem avisar, tarde, quase sempre, a chave dava duas voltas na fechadura. Entrava devagar e fechava com cuidado a porta, despia o casaco, que deixava no espaço vazio do cabide. O gato era preto, vinha sempre ver quem era, olhos a brilhar, miava de mansinho e passava-lhe por entre as pernas antes de saltar para o sofá. Abria a porta do quarto, descalçava os sapatos, despia a roupa, deitava-se no espaço vazio da cama. Ele acordava nesse exacto momento, sorria. Por entre beijos apressados, faziam amor, como estranhos que se conhecem demais, em silêncio. Ela sussurrava ao ouvido um amo-te envergonhado, sorria, adormeciam abraçados.
Ela acordava, cedo, quase sempre, levantava-se com cuidado. Ele acordava nesse exacto momento, fingia que dormia. Ela vestia a roupa, calçava-se, fechava a porta do quarto, vestia o casaco, a chave dava duas voltas na fechadura, tudo fazia prever mais um dia igual.
terça-feira, fevereiro 27, 2007
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