quinta-feira, dezembro 18, 2025

| Quero

Quero entender o teu plano ou ausência dele. Porque falamos banalidades? Matamos o que somos, no tédio de conversas normais. Se não podemos por decreto dizer o que queremos, quando queremos, prefiro não ofender a memória do que fomos com cotidiano contido.

Não é que tenha nada de novo para contar. Que foi verdade e que foi tudo? É por tudo que vou ser o que quero, dizer tudo o que quero. Porque não sei, nem quero, aprender a ser de outra forma contigo.

segunda-feira, dezembro 15, 2025

| O Elevador

Há um elevador no início desta história. Grande, cheio, pessoas com pressa, a semana a começar. Há um olhar que se cruza, dura o suficiente para se notar. Há um final de tarde solto que se estende até de madrugada, a semana a terminar. Há um beijo inesperado e todos os que se seguem, as escolhas que se seguem. A viagem de táxi, o quarto, a água do chuveiro quente demais, a tua pele quente demais, a noite curta demais. Há uma manhã que chega e te leva. O dia a começar, uma história que podia terminar aqui.

Há todos os meses seguintes, todas as histórias que escrevemos. Como quem tenta ordenar o mundo em palavras. Demasiado cedo, demasiado tarde, demasiado tudo. As conversas são um lugar de regresso, uma rotina improvável da qual é impossível escapar. É uma espécie de experimento social onde dizemos tudo, sem filtrar nada, para ver quão longe isso nos leva.

Há um elevador a meio desta história, pequeno, só tu e eu de novo. Os instantes iniciais de reconhecimento, os abraços que soam familiares e sincronizados. A noite sem dormir e o despertar na madrugada. Há tempo que foge. Há pressa de viver, momento a momento ou tudo de uma vez. Há dias banais que podiam ser o resto de uma vida. A cidade infinita que se vê da janela, a abrir espaço em tempo emprestado. Uma manhã a mensagem que te enviei dizia:
“Quando saio, estes minutos no transito são difíceis. Eu sinto ainda o teu cheiro. Os meus dedos lembram ainda a tua pele e o teu cabelo enrolado neles. Eu vejo ainda os teus olhos verdes a olhar como se vissem quem sou. Eu penso que não quero repetir isto amanha, ao mesmo tempo e com a mesma intensidade que quero repetir amanha sim e depois e depois e tantas vezes quantas me quiseres…“
As conversas que planeámos ter, antes de perceber que para as concluir, toda uma vida não bastaria. Optamos quase sempre por coisas leves: o rir sem parar de assuntos mundanos, a tua cabeça perdida no meu colo, o corpo estendido no sofá o copo de vinho no chão. As transições de quase adormecer para de repente, despertar todos o sentidos. O teu corpo colado ao meu, sem espaço nem vontade de parar. Há também a manhã em que eu desejei engolir todas as tuas lágrimas pela certeza de que não é justo usar lágrimas em histórias felizes.

Há um elevador no final desta história. Desço sozinho, sem pressa, na esperança que a viagem não termine.

O taxi pára num cruzamento, e na rua um anúncio colado de forma amadora, apregoa feitiços para recuperar amores perdidos. Por um momento desejei ligar a esse e a todos os curandeiros do mundo.

Há uma cidade deserta porque tu já não estás nela.

Há tudo o que ficou por dizer.

Há silêncio...

quarta-feira, novembro 26, 2025

| O sofá no canto do quarto

É verdade o que dizem de mim aqui por casa. Às vezes sinto-me perdida. A memória prega partidas, esqueço ao que ia, esqueço de onde vinha. Olho as nossas fotografias espalhadas pelos móveis e não reconheço a mulher com rugas ao teu lado.

Não sei porque demoras a voltar, também não sei precisar há quanto tempo foste. Se estás há meses nos Açores ou se saíste esta manhã para caçar no Alentejo, tudo se mistura. Devia assustar-me esta visão turva do tempo, sinto que sim. No entanto, os dias seguem simples e saborosos. As visitas que por aqui passam: abraços, sorrisos, rostos: Tudo desliza por mim sem ficar. As pessoas desta casa ocupam-se do resto.

Há dias ouvi contar algo que me soou familiar, sobre como, de um dia para o outro, enlouqueceste e eu me recusei a cuidar de ti. Sobre como em tão pouco tempo desapareceste e eu nem me despedi. Não devo ter entendido bem, sabes como confundo as coisas tantas vezes. Nesse dia fiz o que sempre faço: esperei que o ruído passasse, esperei pelo momento de voltar a este canto do quarto, sem pressa.

Às vezes penso que este sofá é o último lugar onde existo. Como se, ao sentar-me aqui, o mundo ficasse mais quieto e as palavras deixassem de fugir. Mesmo sem saber se hoje é hoje, se já foi ontem, ou se ainda falta muito para amanhã. De vez em quando as coisas banais fazem sentido, há pouco, por exemplo, disseram-me que ia chover. Fiquei contente. A chuva sempre me deu paz. Gosto de ver as gotas a descer, como se o mundo se arrumasse. Acredito que, mesmo que a minha cabeça se desarrume, tu vais saber encontrar-me no meio do silêncio.

O silêncio eu entendo. De alguma forma ele dissolve o tempo em memórias e leva-me para longe, sempre para os mesmos lugares. Sempre para ti.

quarta-feira, novembro 12, 2025

| Segunda-Feira

Segunda-feira não é dia para aventuras nem tropelias.
É dia de entrar no elevador sem pressa, apesar da hora tardia.
Abrir a porta que ficou no trinco, sorrir, porque me esperas.
Cabelo despenteado, camisola larga de dormir, sem mais nada.
No peito, planetas desenhados; no olhar, o universo.

O teu beijo é o paradoxo habitual, entre o conforto e o arrepio.
O resto do risoto de domingo, o resto da conversa do dia
O resto de um abraço na cama, um adormecer igual.
Uma segunda-feira banal que podia ser o resto, de uma vida.

terça-feira, novembro 11, 2025

| Multiverso

Estou a habituar-me à ideia de deixares de fazer parte do meu dia, mas confesso que é uma ideia de merda.

Ontem li que em 1957, um físico americano propôs uma tese sobre universos paralelos. Achei auspicioso que, algures, duas versões nossas tenham encontrado maneira de continuar na vida um do outro. Que passem ainda horas em debates abstratos, com a leveza com que listam banalidades, na esperança adolescente que um detalhe os coloque em desacordo.

O que não parece justo, é a versão do universo que me calhou: Em que tudo o que tenho são memórias que deixaste em mim.

Sabes, nunca fui altruísta. Não me consola saber de mecânicas quânticas que originam sorte alheia. O que queria era sentir a tua pele mais uma vez. Juro que era só mais uma vez.

E talvez, no processo de bifurcação de universos, eu tivesse sorte. Talvez, desta vez, fôssemos nós a cópia boa.

Estou a habituar-me à ideia de deixares de fazer parte do meu dia, enquanto penso que em todas as versões, haverá sempre um fim.

Talvez, a nossa versão seja a boa afinal. Fomos, por um momento, tudo.

Talvez isso seja suficiente…

sexta-feira, setembro 12, 2025

| Improvável

- (Eu não acredito em deus) Mas o acaso que te criou estava muito inspirado no dia que o fez.

Não sei o que fazer com este texto. Será um diálogo imaginário ou um monólogo transcrito de pores do sol que nunca chegaram? Há frases soltas que se inventam entre passos a ritmo rápido na madrugada, enquanto a memória do teu sabor me assalta desprevenido.

(É voz corrente do povo da redondeza, quando deus fez a beleza foi em ti que ele pensou) - Cantava a música em plano de fundo enquanto no primeiro plano se discutiam teorias de felicidade.

A beleza de qualquer texto, até deste, é que uma vez escrito, enquanto existir, a memória existe.

- Daqui a, por exemplo, 50 anos vais lembrar os rascunhos de planos impossíveis?

- Impossíveis é um exagero.

- Improváveis então?

- Uma coisa de cada vez.

Uma coisa de cada vez é um bom plano, sólido, a roçar o infalível. Como uma decisão de que o que vier será melhor e todos os erros são desculpas de recomeço.

Saramago dizia que na vida cabem mais vidas do que as que somos capazes de viver e eu tendo a concordar. O que não diz é o risco de as querer viver todas e de todas as vidas que se eliminam a cada escolha.

Não sei o que fazer com este texto, mas no esboço ele era leve como um poema, como uma canção, como tu.

Será mesmo que tudo o que criamos é uma derivada de algo? Das músicas que ouvimos, os livros que lemos, as pessoas que amamos? E se assim for, serão os pensamentos que me invadem um produto das memórias fotográficas de noites inventadas? O que fica, a vida que fica, é real, tão real como saber que te escrevi antes de te imaginar existir.

- Como pode ser que não prestes e prestes tanto ao mesmo tempo?

- Como pode ser que palavras tão ao acaso cheguem tão longe em tão pouco?

Não sei o que fazer com este texto. Podia escrever durante horas.

(Tu sabes que podia escrever durante horas)

Mas as horas não simplificam o destino. Não sei o que fazer com este texto, mas principalmente não sei como o terminar.

Sei, a sugestão que darias. E sei que é bom terminar como tudo começa, por isso, porque não pode ser de outra forma

- Uma coisa de cada vez…