| Imprevisto
Nada o fazia prever, disso recorda-se bem. Os detalhes são imprecisos, misturam-se com instantes, catalisadores insuspeitos da memória.
O trânsito infernal, a corrida apressada, ele nunca gostou de esperar. Ao certo foi em Abril. Um amigo de regresso. Entre a amena cavaqueira de café, olhares que se cruzam, tudo o que veio por acréscimo. As imagens disformes numa tentativa de não esquecer.
Bebe o copo de um trago, acende um cigarro. Não entende como é possível que se tenham insinuado tantos lapsos numa história simples e fácil de recordar.
O pequeno-almoço intocado, não já no café, num quarto de hotel. O sol por entre as cortinas, a cama desfeita. A viagem a Ceuta, a casa alugada no regresso, como se todo o tempo fosse pouco, como se fosse um crime desperdiçar mais um dia.
Nada o fazia prever, disso recorda-se bem. A casa de repente vazia, como se até um pouco de tempo fosse demais, como se fosse um crime prolongar mais um dia. As palavras que magoam porque ficam. Vagueia pelo quarto, o silêncio, os objetos de que se vai livrando, as palavras que ardem.
Nada o fazia prever, disso recorda-se bem.
sexta-feira, fevereiro 27, 2026
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