| Entretanto
Contornou o estacionamento e apressou o passo, estava uns minutos atrasado. O edifício à esquerda era amarelo com apontamentos de granito, em volta a relva bem cuidada, arbustos floridos rosa e branco. Ao fundo uma torre alta, talvez um depósito de água. Todo o espaço parecia o cenário de um filme antigo. No ar sentia-se um cheiro intenso a maresia trazido pelo vento da praia ao lado. O cheiro manteve-se até entrar no consultório à direita. A sala de espera estava cheia àquela hora da manhã, várias pessoas sentadas a conversar, funcionários entravam e saíam apressados. Tirou uma senha, aguardou a sua vez, depois de pagar a consulta que achou cara sentou-se à espera. Por entre o barulho da sala sentiu o cheiro da rua de novo, não a maresia.
(Era madrugada e a rua estava cheia, alegre, barulhenta, ritmo de final de festa e logo depois o quarto de hotel em silêncio, o fio dourado que ondulava no peito, a tua pele doce.)
Mudou a música no carro, ajustou o ar condicionado. O GPS previa 2 horas e 50 minutos até ao destino, totalmente a tempo do combinado, mais margem para contratempos. O céu muito azul salpicado de nuvens brancas que se moviam rapidamente.
(O teu sorriso entre os beijos, a conversa banal no sofá, lá fora o céu cinzento sem uma única nuvem, logo depois algumas lágrimas que escondeste enquanto fugias apressadamente para a janela.)
Fechou o portão branco e desceu a rua, a luz de final de tarde coloria tudo em volta, emprestava tons dourados aos azulejos da casa com ar vazio à esquerda. No cruzamento ao fundo, o vento soprava com mais força, refrescava o calor intenso que ainda se sentia àquela hora.
(No banco de trás do taxi por entre o trânsito infernal da manhã fria sentiu ainda o teu corpo, havia tempo, dias, abraços. Havia loucura por inventar.)
O para-arranca sem tréguas não importava muito, conduzia em piloto automático sozinho e em silêncio, não tinha pressa. Escolheu uma música nova.
(Do teu lado do banco comentaste a escolha em tom de provocação, o olhar era o de sempre, desconcertante.)
A imaginação confundia-se com memória.
A noite era agradável. O empregado pousou na mesa a bebida num copo decorado de forma espampanante. Da varanda do bar adivinhava-se perto o mar.
(Provaste a bebida, comentaste as mesas vazias, a conversa durou horas.)
Se estivesses ali terias gostado, teriam ficado de certeza até depois de o bar fechar.
(Há algo visceral na urgência dos gestos que se repetem quando se sente que podem ser os últimos. O café forte acabado de passar, a mesa desarrumada, a garrafa de vinho quase vazia abandonada a um canto. A fotografia, um livro como presente. A raiva. Um beijo.)
A mensagem dizia: Tomara que te despeças de mim a vida inteira.
sexta-feira, setembro 11, 2026
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