segunda-feira, julho 27, 2026

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O apartamento era pequeno. De um ponto exato do corredor em frente à casa de banho podia-se ver tudo. O quarto à direita com a cama velha a ocupar praticamente o espaço completo, depois a varanda cuja única utilidade era guardar a botija suplente. À esquerda a sala e a cozinha juntas. A janela em frente, grande, luminosa, ao menos isso. Grande o suficiente para deixar entrar a vida e o sol de fim de dia. Grande o suficiente para deixar sair o fumo dos cigarros que fumávamos compulsivamente. Grande o suficiente para que tivesses ameaçado mais que uma vez saltar dela. Eu segurei-te sempre, um segundo andar não é alto mas era capaz de fazer estragos.

O apartamento era do tamanho da nossa experiência na vida. As paredes totalmente brancas, acabadas de pintar, na primeira manhã, por entre caixas de tralha a sensação de que a vida ia finalmente começar. Para trás ficavam os meses mais intensos que conhecia. No meu quarto alugado, o filme tinha o bruce willis, durou cinco minutos, a noite durou até de manhã. A foto na parede que esqueci de tirar não foi suficiente para incomodar mas não evitou a pergunta. Fingiste acreditar na explicação e ignorar o óbvio. Durante algum tempo passei a tirar a foto quando lá ias. Depois deitei-a fora.

O apartamento mudou, uma parede vermelho vivo na sala e uma outra rosa choque no quarto, a cama nova era castanha e por cima um quadro com um detalhe de zebra. Tudo era barato, berrante, colorido. Uma noite, deviam ser umas 3 ou 4 da manhã a policia bateu à porta, disse que o barulho tinha de parar, os vizinhos queriam dormir. Pedimos desculpa, trocamos a cama pela sofá. O barulho continuou. Ninguém chamou a policia no entanto, quando saíste prédio fora atrás de mim, aos gritos e tentaste parar o meu carro com as tuas mãos.

O apartamento envelheceu rápido, a intensidade tem esse efeito. O móvel da sala partiu e deixou de abrir, mais tarde quando o vendi fiz um desconto aos senhores que o levaram. Uma noite, sentados no chão da sala, puseste uma musica que falava sobre beber garrafas de vinho barato e recomeçar tudo de novo. Pelo menos dessa vez resultou.

O apartamento ficou mais silencioso e até um pouco maior desde que nos despedimos, entre a cama e o roupeiro. Vendi tudo em pouco mais de uma semana, menos o roupeiro que se desfez e foi para o lixo. Tudo junto não rendeu quase nada.

De um ponto exato do corredor em frente à casa de banho podia-se ver tudo. Do que fomos sobravam as duas paredes coloridas. Devem ter dado um trabalho danado a apagar.

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